O que é o comportamento e porque é importante compreendê-lo antes de o corrigir?
É muito comum ouvirmos frases como: “Ele faz de propósito.”, “Ela sabe perfeitamente o que está a fazer.” ou “Só precisa de aprender a portar-se bem.” Enquanto pais e cuidadores, é natural procurar corrigir comportamentos que são preocupantes. No entanto, antes de tentar mudar um comportamento, existe uma pergunta essencial que deve ser fazer: Porque é que este comportamento está a acontecer?
A resposta a esta pergunta pode fazer toda a diferença na forma como ajudamos uma criança.
Afinal, o que é o comportamento?
Na Psicologia, consideramos comportamento tudo aquilo que uma pessoa faz e que pode ser observado e medido. Falar, brincar, pedir ajuda, correr, chorar, bater, sorrir, apontar ou evitar uma tarefa são todos exemplos de comportamentos. Mesmo aquilo que não conseguimos observar diretamente, como pensar ou sentir, influencia frequentemente a forma como nos comportamos.
Um dos princípios fundamentais da Análise Comportamental Aplicada (ABA) é que todo o comportamento acontece por uma razão. Isto não significa que todos os comportamentos sejam adequados, mas significa que todos cumprem uma função para quem os emite.
O comportamento é uma forma de comunicação
Especialmente nas crianças, o comportamento é muitas vezes uma forma de comunicar necessidades, dificuldades ou emoções. Uma criança que ainda não consegue dizer “Estou cansado” pode começar a chorar. Outra que tem dificuldade em pedir ajuda pode desistir da tarefa ou atirar os materiais para o chão. Uma criança que sente necessidade de atenção pode recorrer a comportamentos que sabe que provocam uma reação nos adultos. Quando olhamos apenas para o comportamento, corremos o risco de interpretar mal aquilo que a criança realmente está a tentar comunicar.
Porque é que compreender vem antes de corrigir?
Imagine que uma criança grita sempre que chega a hora de fazer os trabalhos de casa. Se nos focarmos apenas em parar os gritos, poderemos recorrer a castigos, repreensões ou insistência.
No entanto, se procurarmos compreender o que está por detrás desse comportamento, podemos descobrir diferentes possibilidades:
- A tarefa é demasiado difícil.
- A criança está cansada.
- Tem medo de errar.
- Não compreende as instruções.
- Aprendeu que, ao gritar, consegue adiar a tarefa.
Embora o comportamento observado seja exatamente o mesmo, as razões que o explicam podem ser completamente diferentes. E se a causa é diferente, a intervenção também deverá ser.
O modelo ABC: uma ferramenta para compreender o comportamento
Na Análise Comportamental Aplicada utilizamos frequentemente o modelo ABC, que nos ajuda a perceber porque determinado comportamento ocorre.
A: Antecedente
- O que aconteceu imediatamente antes do comportamento?
- Quem estava presente? Onde estava a criança? O que lhe foi pedido?
B: Comportamento (Behaviour)
- O que a criança fez exatamente?
- É importante descrever o comportamento de forma objetiva, evitando interpretações. Em vez de dizer “portou-se mal”, é mais útil descrever “gritou”, “empurrou o colega”, “atirou os brinquedos” ou “saiu da cadeira”.
C: Consequência
- O que aconteceu imediatamente depois?
- O adulto chamou a atenção? A tarefa terminou? A criança recebeu ajuda? Conseguiu aquilo que pretendia?
Ao observar este ciclo repetidamente, conseguimos identificar padrões e compreender quais os fatores que estão a manter o comportamento.
Exemplo prático: Imagine que chega a hora de desligar o tablet.
- Antecedente: o pai informa a criança de que o tempo de utilização do tablet terminou.
- Comportamento: a criança começa a chorar, grita e atira o tablet para o sofá.
- Consequência: para evitar o conflito, o pai permite que a criança utilize o tablet durante mais 10 minutos.
Neste exemplo, a consequência aumenta a probabilidade de o comportamento voltar a acontecer no futuro, porque a criança conseguiu prolongar o acesso ao tablet através da birra. É importante lembrar que este tipo de análise não serve para culpar os pais ou a criança. Pelo contrário, ajuda-nos a perceber como as interações do dia a dia podem influenciar o comportamento e orienta-nos para estratégias mais eficazes e consistentes.
Todos os comportamentos têm uma função
A investigação em ABA mostra que muitos comportamentos são mantidos porque permitem à criança alcançar um determinado objetivo.
De forma geral, um comportamento pode servir para:
- Obter atenção de outras pessoas.
- Conseguir acesso a objetos ou atividades desejadas.
- Evitar ou escapar a situações difíceis ou desagradáveis.
- Satisfazer necessidades sensoriais ou de autorregulação.
Quando identificamos esta função, deixamos de perguntar: “Como faço para acabar com este comportamento?” E passamos a perguntar: “O que é que a criança está a tentar conseguir através dele?”. Esta mudança de perspetiva é um dos aspetos mais importantes de uma intervenção eficaz.
Corrigir sem compreender pode reforçar o problema
Por vezes, sem nos apercebermos, as nossas respostas acabam por manter precisamente os comportamentos que gostaríamos de reduzir. Por exemplo, se uma criança faz uma birra para evitar arrumar os brinquedos e, perante a intensidade da situação, o adulto decide fazê-lo por ela, a criança aprende que aquele comportamento foi eficaz para escapar à tarefa.
Isto não acontece porque a criança é manipuladora. Acontece porque todos nós, crianças e adultos, tendemos a repetir os comportamentos que resultam. Da mesma forma, quando um comportamento deixa de produzir o efeito esperado e a criança aprende uma alternativa mais adequada para atingir o mesmo objetivo, é muito mais provável que ocorra uma mudança consistente.
O papel dos pais e cuidadores
Compreender o comportamento não significa aceitar tudo nem deixar de estabelecer limites. Significa que os limites passam a ser definidos com maior consciência e eficácia. Quando procuramos compreender o que está por detrás de um comportamento, conseguimos:
- responder de forma mais calma e consistente;
- ensinar competências novas em vez de apenas corrigir erros;
- reduzir conflitos familiares;
- promover a autonomia da criança;
- construir uma relação baseada na confiança e na compreensão.
Uma mensagem final
Nenhum comportamento surge do nada. Antes de existir um grito, uma birra ou uma agressão, existe sempre um contexto, uma necessidade ou uma aprendizagem. Na Psicologia e na Análise Comportamental Aplicada, acreditamos que compreender o comportamento é o primeiro passo para o transformar de forma respeitosa, eficaz e duradoura.
Por isso, da próxima vez que um comportamento o preocupar, experimente trocar a pergunta “Como faço para o parar?” por “O que estará esta criança a tentar comunicar?” Muitas vezes, é precisamente nessa mudança de perspetiva que começa a verdadeira intervenção.
