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Mensagem de blogue por Catarina Silva

Férias escolares e ecrãs: Como encontrar o equilíbrio sem transformar cada dia numa batalha?

Férias escolares e ecrãs: Como encontrar o equilíbrio sem transformar cada dia numa batalha?

As férias chegaram e, com elas, uma realidade que muitas famílias conhecem bem: sem a rotina da escola, os ecrãs tendem a ocupar mais espaço no dia a dia.

É natural. Há mais tempo livre, os pais continuam a trabalhar, as temperaturas elevadas levam muitas vezes a permanecer em casa e o telemóvel, o tablet ou a televisão acabam por surgir como uma solução fácil para preencher os momentos de pausa.

Mas será que o problema está (só) no aumento do tempo de ecrã?

A investigação mais recente sugere que a resposta a esta questão é complexa. Mais importante do que contar minutos é perceber comoquandopara quê e o que as crianças fazem nos ecrãs.

As férias não precisam de ser tempo de “desintoxicação digital” mas não têm que ser tempo de “intoxicação digital”

Uma criança ou adolescente não tem que passar os dois meses de férias completamente afastado da tecnologia. Os ecrãs fazem parte da vida atual e podem ser ferramentas importantes para comunicar, aprender, criar ou divertir-se.

O verdadeiro desafio é garantir que não substituem aquilo de que o cérebro continua a precisar, e que é fundamental, também em época de férias:

  • brincar livremente;
  • mexer o corpo;
  • estar ao ar livre;
  • conviver presencialmente;
  • ler;
  • dormir bem;
  • experimentar o tédio, que muitas vezes dá origem à criatividade.

Sempre que o ecrã ocupa demasiado espaço, estas experiências vão desaparecendo, de forma silenciosa e, por vezes, impercetível.

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O perigo nem sempre está no ecrã

Meia hora de videochamada com os avós não tem o mesmo impacto que meia hora de “scroll” infinito nas redes sociais.

Da mesma forma, criar uma história, desenhar digitalmente ou pesquisar um tema de interesse é diferente de consumir vídeos rápidos durante horas.

Antes de entregar um dispositivo à criança, vale a pena fazer quatro perguntas:

  • Para que vai usar?
  • Que tipo de conteúdo vai consumir?
  • Vai utilizar o ecrã sozinha ou acompanhada?
  • O que ficará por fazer por causa desse tempo de ecrã?

Estas perguntas ajudam-nos a olhar para a qualidade da experiência e não apenas para a duração.

Dar férias aos ecrãs

As férias são, também, uma oportunidade para experimentar hábitos digitais mais saudáveis.

Em vez de estabelecer proibições difíceis de cumprir, é possível experimentar pequenos acordos familiars, como por exemplo:

  • refeições sem telemóveis para todos;
  • dispositivos fora dos quartos durante a noite;
  • pelo menos uma atividade ao ar livre todos os dias;
  • momentos específicos para utilizar ecrãs, evitando o uso constante ao longo do dia;
  • zonas livres de ecrãs;
  • ver um filme ou um documentário em família e conversar sobre o que foi visto.

As crianças aprendem mais pelo exemplo do que pelas regras. Se os adultos também criarem momentos sem ecrãs, a mudança torna-se muito mais fácil e consistente.

O tédio também faz parte das férias - as potencialidades do dolce fare niente!

Muitos pais/cuidadores sentem necessidade de ocupar todos os minutos livres dos filhos.

No entanto, quando não recorremos imediatamente ao ecrã para eliminar o tédio, damos espaço para que a criança (e o adulto) invente jogos, explore interesses, resolva problemas e desenvolva autonomia.

Nem sempre é preciso oferecer entretenimento. Por vezes, basta oferecer tempo e presença.

A tecnologia faz parte da vida das crianças e dos adolescentes. O desafio não passa por eliminá-la, mas por garantir que não ocupa o lugar daquilo que nenhuma aplicação consegue substituir: a relação, a brincadeira, o movimento, o sono, a criatividade e as experiências vividas no mundo real. As tecnologias só são boas se tiverem limites. 

Nas férias escolares, como durante o ano, a tolerência não tem que ser zero (a não ser para crianças até aos 3 anos*), mas também não pode ser de “livre demanda”

Talvez este verão não seja sobre usar menos ecrãs, mas sobre criar mais momentos que façam com que eles deixem, naturalmente, de ser a única opção. Porque as melhores memórias das férias raramente acontecem atrás de um ecrã.

[*Recomendação da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria]


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