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Mensagem de blogue por NeuroGime Academy

"Não fui escolhido. E agora?" - O que ser dispensado faz realmente a um atleta?


Há uma altura do ano em que os pavilhões ficam mais silenciosos, o fluxo de pessoas nos estádios e campos de treino diminui, o grupo de mensagens dos pais deixa de ter atividade, e alguns atletas não voltam mais a pisar o chão que pisaram nos últimos meses. Umas vezes por decisão própria, outras vezes por decisão da instituição.

Embora estas decisões façam parte da natureza do desporto, nem sempre são vividas apenas como uma decisão desportiva. Ser dispensado de uma equipa pode parecer, visto de uma perspetiva externa à situação, uma simples decisão técnica. No entanto, para quem vive a situação, tanto o atleta, como os pais e a família, sentem-na como muito mais do que uma decisão. 

Quando o desporto se torna parte de quem somos

Um dos maiores desafios na psicologia do desporto é ajudar a separar o que fazemos daquilo que realmente somos. 

Para a maioria dos atletas, o desporto representa um lugar central na vida de cada um. Dos treinos, competições e resultados, às rotinas, amizades, objetivos, sentimento de pertença e identidade, o desporto acaba por ocupar um lugar importante.  Com o passar dos anos é comum o papel de atleta ser uma das formas através das quais a pessoa se define. Muitas horas investidas, recursos, inúmeros sacrifícios pessoais, lesões ultrapassadas, e uma dedicação constante em prol de um objetivo. 

Num momento destes, desaparece um espaço na rotina do atleta, mas há um espaço que se cria dentro dele, “Quem sou eu agora?”, “O que vai ser de mim?”, “Onde é que eu pertenço?”.

A narrativa que construímos sobre esse momento é muitas vezes a responsável por provocar o sofrimento. Este surge pela interpretação que o atleta faz dessa decisão, da dificuldade em gerir as emoções associadas e do significado que atribui ao seu valor enquanto atleta. Quando esta narrativa não é questionada ou trabalhada, pode instalar-se silenciosamente e começar a influenciar a autoestima muito para além do desporto, pode haver impacto na escola, nas relações e nas escolhas futuras. 

O que começa com uma decisão técnica, pode tornar-se uma crença profunda sobre o próprio valor. 

Os pensamentos que surgem

O significado que atribuímos à situação pode variar, e claro que haverá pensamentos como: 

“estão a ser injustos”
“mas eu dei tudo o que tinha”
“o que é que me faltou?”
“o que é que o outro que ficou tem que eu não tenho?”
“desiludi toda a gente”
“esforcei-me para quê? Para isto?”
“talvez seja melhor ficar por aqui”

Pensamentos diferentes, palavras diferentes, mas que com frequência se condensam todos num só, “não sou bom o suficiente”. 

Quando o silêncio não resolve 

E é precisamente aqui que o trabalho começa. 

Não para apagar o que foi sentido, não para convencer de que “não foi nada” ou de que “há coisas piores na vida”, como muitas vezes é comentado por quem não está dentro da situação, e sim para ajudar a entender que todas as interpretações podem ser questionadas, trabalhadas e reconstruídas, e “não sou bom o suficiente” não é exceção. 

Algo que torna este momento particularmente delicado, é a dificuldade em falar sobre ele. Mostrar vulnerabilidade ainda é visto muitas vezes como fraqueza e o atleta prefere evitar, negar, ou isolar-se, tentando transmitir que a ferida se encontra fechada por fora, mas na verdade encontra-se por trabalhar por dentro. 

Embora compreensíveis, estas estratégias utilizadas pelo atleta acabam por prolongar o sofrimento, e a falta de gestão emocional pode levar à desmotivação, abandono da prática desportiva, e uma relação deficitária entre o próprio esforço e os erros cometidos. 

Como os pais vivem a situação? 

Os pais são frequentemente uma parte invisível deste processo. Acompanham o investimento, as conquistas, a logística, as dificuldades e os sacrifícios feitos pelo filho. Investem tempo, energia, recursos e acompanham de perto os sonhos dos seus filhos. 

É comum também eles viverem estas decisões com tristeza, frustração, revolta e sentimento de impotência. Há um sentimento presente nos pais que raramente é verbalizado, a sensação de que, também eles falharam. Podem sentir que falharam por não conseguirem proteger o filho da desilusão, das sensações negativas, por não conseguirem encontrar explicação ou por assistirem ao sofrimento sem saber como ajudar. 

Na tentativa de aliviar o sofrimento, alguns pais procuram soluções rápidas e minimizam a situação, muitas vezes tentam convencer de que “não vale a pena pensar mais no assunto”, “daqui a uns meses já nem te vais lembrar”, “não deixes que eles te vejam que te afetou”. Nestes momentos o que os atletas mais precisam é de apoio, que alguém valide o que estão a sentir, de espaço para processar ao seu ritmo o que aconteceu. 

O papel da psicologia do desporto

O que a psicologia do desporto procura fazer nestes momentos é criar um espaço seguro onde o atleta possa nomear o que está a sentir, muitas vezes pela primeira vez sem se sentir julgado ou desvalorizado. Onde possa olhar para a decisão que foi tomada de forma distanciada, sem que defina quem é. Onde possa separar o valor que tem como pessoa do resultado que obteve como atleta. Este é um trabalho exigente, em termos de envolvimento da parte do atleta e de tempo, mas quando é realizado, muda completamente a relação que o atleta tem consigo próprio, tanto dentro, como fora do desporto. 

Ser dispensado pode ser paradoxalmente um ponto de viragem. O momento em que o atleta descobre uma relação mais sólida e mais honesta consigo próprio e com o desporto, através do espaço seguro e do suporte para o processar. 

O desporto ensina muita coisa, ensina a ganhar, a perder, a trabalhar em equipa, a ser responsável, a superar os nossos limites, mas há lições que precisam de ser acompanhadas para se tornarem crescimento em vez de cicatriz. 

A decisão foi deles, a conclusão é tua, vale a pena refletir:

  • O que é que esta decisão diz realmente sobre mim? 
  • Quem sou eu para além do desporto? 
  • O que é que continuo a levar comigo mesmo que esta etapa tenha terminado? 
  • Será que uma decisão externa deveria definir aquilo que acredito sobre mim?

Uma decisão técnica pode mudar um percurso desportivo, mas não pode dizer-te quem és. 


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