A importância da higiene oral no doente com disfagia
A disfagia orofaríngea, caracterizada pela dificuldade em engolir, é uma condição frequentemente associada ao envelhecimento e a diversas patologias neurológicas, como o acidente vascular cerebral (AVC), a doença de Parkinson ou as demências. Apesar de, muitas vezes, ser encarada apenas como uma dificuldade alimentar, a disfagia apresenta implicações clínicas bastante mais complexas, encontrando-se frequentemente associada a desnutrição, desidratação, internamentos prolongados, aumento da dependência funcional e complicações respiratórias potencialmente graves (Martino et al., 2005).
Na prática clínica, a abordagem terapêutica da disfagia centra-se habitualmente na adaptação de consistências alimentares, na utilização de estratégias compensatórias e na reabilitação da deglutição. No entanto, existe um aspeto fundamental que continua, muitas vezes, a ser subvalorizado: a saúde oral.
Quando os mecanismos de deglutição se encontram comprometidos, alimentos, líquidos ou até a própria saliva podem entrar na via respiratória em vez de seguirem corretamente para o esófago. Em muitos casos, estas aspirações ocorrem de forma silenciosa, sem tosse ou sinais evidentes de engasgamento, dificultando a sua identificação precoce. Contudo, o risco associado à aspiração não depende apenas da quantidade de material aspirado, mas também da sua composição microbiológica.
Clavé e Shaker (2015) descrevem a disfagia como uma condição multifatorial em que a segurança respiratória assume um papel central. Assim, uma cavidade oral comprometida, com elevada carga bacteriana e acumulação de resíduos alimentares, pode transformar episódios recorrentes de microaspiração em eventos infecciosos relevantes.
A relação entre saúde oral e saúde respiratória
A cavidade oral possui naturalmente uma grande diversidade de microrganismos. Contudo, em situações de higiene oral inadequada, ocorre acumulação de placa bacteriana, restos alimentares e saburra lingual, favorecendo a proliferação de microrganismos potencialmente patogénicos.
Nos doentes com disfagia, esta realidade assume particular importância. Alterações salivares e de sensibilidade oral, dependência funcional e dificuldades motoras ou cognitivas comprometem frequentemente a capacidade de realizar uma higiene oral adequada. Para além disso, muitos destes doentes apresentam alterações da motricidade orofacial que condicionam a eficácia dos mecanismos naturais de limpeza da cavidade oral, contribuindo para maior retenção de resíduos alimentares.
Pathak et al. (2021) destacam a relação entre o microbioma oral e a saúde respiratória, sugerindo que alterações do equilíbrio bacteriano da cavidade oral podem contribuir para o desenvolvimento de infeções pulmonares, particularmente em doentes com episódios recorrentes de microaspiração.
Assim como, Ortega et al. (2014) verificaram que idosos com disfagia apresentam maior colonização da cavidade oral por microrganismos associados a infeções respiratórias. Este dado ajuda a compreender porque a pneumonia associada à aspiração representa uma das complicações mais relevantes da disfagia orofaríngea.
O impacto da higiene oral na prevenção
Nos últimos anos, a evidência científica tem vindo a reforçar a importância dos cuidados de higiene oral na abordagem do doente com disfagia.
Sørensen et al. (2013) demonstraram que a implementação precoce de protocolos sistemáticos de rastreio da disfagia, associada a cuidados intensivos de higiene oral, contribuiu significativamente para a redução da incidência de pneumonia em doentes após AVC.
Mais recentemente, Li et al. (2025) demonstraram que programas estruturados de intervenção em saúde oral em doentes com disfagia pós-AVC podem reduzir significativamente a incidência de pneumonia associada ao AVC, bem como melhorar o estado geral de saúde oral.
A influência da saúde oral vai, no entanto, muito além do risco infeccioso. Xerostomia, dor oral, alterações do paladar, próteses dentárias desajustadas ou acumulação persistente de resíduos alimentares podem comprometer significativamente o conforto durante as refeições e reduzir o prazer associado à alimentação.
Em muitos casos, estas alterações acabam por contribuir para menor ingestão oral, agravando situações de desnutrição e desidratação já frequentemente presentes nesta população.
O que podemos fazer para melhorar?
A higiene oral no doente com disfagia deve ser realizada de forma regular, segura e adaptada às limitações funcionais de cada pessoa.
Medidas simples, como a escovagem dentária após as refeições, a limpeza adequada da língua e a correta higienização das próteses dentárias, podem contribuir para a redução da carga bacteriana presente na cavidade oral e, consequentemente, do risco de complicações respiratórias.
Em doentes dependentes, torna-se particularmente importante garantir que cuidadores e profissionais possuam as ferramentas necessárias para realizar estes procedimentos de forma segura. O posicionamento do doente durante a higiene oral, a monitorização da presença de resíduos alimentares e a identificação de sinais como dor oral, sangramento gengival ou lesões da mucosa assumem igualmente relevância clínica.
A utilização de agentes antissépticos, como a clorexidina, pode ser considerada em casos específicos e sob orientação profissional.
É igualmente importante reconhecer que, em muitos contextos clínicos, a higiene oral continua a ser desvalorizada. No entanto, pequenas rotinas consistentes podem representar uma diferença significativa na prevenção de complicações respiratórias e no conforto global do doente.
O papel da equipa multidisciplinar
O terapeuta da fala assume um papel central, não apenas na reabilitação da deglutição, mas também na educação de familiares e cuidadores. Saber como realizar estes cuidados em doentes dependentes ou com risco de aspiração, de forma eficaz e segura, é uma competência essencial na prática clínica.
Esta intervenção deve integrar uma abordagem multidisciplinar, envolvendo médicos, enfermeiros, médicos dentistas e cuidadores, garantindo que a higiene oral é considerada uma componente estruturante do plano terapêutico.
Conclusão
A higiene oral no doente com disfagia não se trata apenas de uma questão estética, mas de segurança clínica. Trata-se de uma intervenção simples, acessível e com elevado impacto na prevenção de complicações respiratórias.
Apesar de frequentemente negligenciada, a higiene oral deve ser encarada como parte integrante da abordagem terapêutica ao doente com disfagia. Pequenas intervenções, quando realizadas de forma consistente e integrada na prática clínica, podem traduzir-se numa redução significativa de complicações respiratórias, internamentos e sofrimento associado.
Cuidar da saúde oral é, em muitos casos, um passo decisivo para proteger a função respiratória, promover segurança clínica e melhorar a qualidade de vida.
REFERÊNCIAS:
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Clavé, P., & Shaker, R. (2015). Dysphagia: Current reality and scope of the problem. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, 12(5), 259–270. https://doi.org/10.1038/nrgastro.2015.49
Li, Q., Li, Y., Tian, Y., Xiang, J., Xu, T., Tang, E., & He, J. (2025). Effectiveness of the “CEME” oral health intervention program for preventing stroke-associated pneumonia in patients with post-stroke dysphagia: A randomized controlled trial. BMC Oral Health, 25, 1870. https://doi.org/10.1186/s12903-025-07190-w
Martino, R., Foley, N., Bhogal, S., Diamant, N., Speechley, M., & Teasell, R. (2005). Dysphagia after stroke: Incidence, diagnosis, and pulmonary complications. Stroke, 36(12), 2756–2763. https://doi.org/10.1161/01.STR.0000190056.76543.eb
Ortega, O., Parra, C., Zarcero, S., Nart, J., Sakwinska, O., & Clavé, P. (2014). Oral health in older patients with oropharyngeal dysphagia. Age and Ageing, 43(1), 132–137. https://doi.org/10.1093/ageing/aft164
Pathak, J. L., Yan, Y., Zhang, Q., Wang, L., & Ge, L. (2021). The role of oral microbiome in respiratory health and diseases. Respiratory Medicine, 185, 106475. https://doi.org/10.1016/j.rmed.2021.106475
Sørensen, R. T., Rasmussen, R. S., Overgaard, K., Lerche, A., Johansen, A. M., & Lindhardt, T. (2013). Dysphagia screening and intensified oral hygiene reduce pneumonia after stroke. Journal of Neuroscience Nursing, 45(3), 139–146. https://doi.org/10.1097/JNN.0b013e31828a412c